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Quinta-feira, 17 de Maio de 2018

Alta do dólar faz turista pesquisar mais e "encurtar" tempo de viagem

A escalada do dólar, que já atingiu a maior cotação desde abril de 2016, está levando o turista a pesquisar mais por uma viagem, a optar por pacotes fechados que incluam hospedagem, alimentação, passagem aérea e passeios, e a escolher destinos da América Latina como uma forma de driblar o alto custo da viagem, de acordo com a Associação Brasileira de Agências de Viagens (Abav).

  • O dólar está cotado a R$ 3,679, alta de 11,03% no ano, até quarta-feira (16); o dólar turismo vale R$ 3,84 (sem IOF).
  • O euro vale R$ 4,34, alta de 9,57% no ano; já a libra, se valorizou 10,93% no ano, para R$ 4,96.

A Abav ainda não tem estatísticas que mostrem esse movimento de ajuste- que deve aparecer no balanço das operações no segundo trimestre. Mas a percepção de agências de viagens e turistas ouvidos pelo G1 é de que os brasileiros não desistiram de viajar, mas já começaram a ajustar seus planos para manter tudo dentro do orçamento.

“A primeira percepção é a dificuldade na tomada de decisão diante da alta do dólar. O passageiro continua querendo viajar, mas fica indeciso na hora de pagar, e pesquisa mais. [Quando decidem], A alta cambial acaba sendo diluída em um pacote que pode ser divido em até 10 vezes e é pago em real com a cotação do dia, para as viagens internacionais”, diz Magda Nassar, vice-presidente da Abav.

Segundo ela, o passageiro opta por pacotes mais curtos, tirando alguns dias da estadia, e por hospedagens mais modestas, como hotéis com menos estrelas ou hostel e similares.

Heris Rosa, Chayene Demarco e a pequena Francesca. (Foto: Arquivo Pessoal)

Heris Rosa, Chayene Demarco e a pequena Francesca. (Foto: Arquivo Pessoal)

Os servidores públicos do Paraná Chayene Cristine Demarco, 34 anos, e Héris Rosa, 42, mantém o plano de viajar em setembro rumo aos EUA levando a filha Francesca, de 5 meses. Com as passagens já compradas, o casal programou as hospedagens nas casas de amigos e resolveu adequar os deslocamentos entre as cidades para economizar.

“Vamos alugar um carro em vez de comprar passagem aérea. Vai sair mais em conta e teremos mais conforto, por causa da bebê”, explica Chayene. "Também costumamos fazer sanduíches para comer durante o dia em passeios", conta.

Viagem mais ‘curta’

A assessora da Prefeitura de Belém (PA) Gabriela Dutra, de 31 anos, e o analista de sistemas Gustavo Costa, de 32, começaram a planejar uma viagem com a família dele há 6 meses -- um presente de aniversário para a mãe de Gustavo. Junto com eles, vão também o pai e um irmão do rapaz.

A ideia era passar por Roma, Paris e Lisboa, em grupo, e viajar a dois para Alemanha e Rússia, incluindo um jogo do Brasil na Copa do Mundo, para o qual já têm ingressos.

No entanto, a alta do dólar atrapalhou o plano do casal. Com a primeira parte da viagem já comprada, a opção foi cancelar passeios como a visita à Disney de Paris e -- o mais sofrido para eles --, cancelar o trecho em que viajariam a dois, que incluía a Copa, e vender os ingressos. Pelo menos esta é a decisão da Gabriela. Gustavo diz que ainda mantém “1% de esperança” de conseguir esticar a viagem até a Rússia e assistir a seleção em campo.

O casal Gabriela e Gustavo em Liverpool. Eles vão ter que encurtar a viagem de férias deste ano por causa da alta do dólar. (Foto: Arquivo Pessoal)

O casal Gabriela e Gustavo em Liverpool. Eles vão ter que encurtar a viagem de férias deste ano por causa da alta do dólar. (Foto: Arquivo Pessoal)

Pagamento em real e 'tudo incluído'

Para conseguir fechar negócio com o turista que está assustado pela disparada do dólar, algumas agências, como a CVC, fazem promoções, como preços com câmbio reduzido e oferecem a opção de pagamento no boleto para liberar o crédito do cartão para emergências.

“Para evitar custos adicionais em dólar no destino turístico, o cliente costuma incluir no pacote, já no ato da compra, os passeios que deseja fazer, optar pela acomodação em apartamento triplo ou quádruplo (ao invés de duplo) ou até mesmo escolher um resort que ofereça sistema de alimentação “tudo incluído” (e não apenas café da manhã), aproveitando parcelamento em reais, evitando assim gastos no destino”, informou a empresa, em nota.

“Os clientes pesquisam mais e encontram o que cabe no bolso, mas não deixam de viajar. A diferença fica entre jantar em um restaurante bom e um restaurante médio”, fala Aldo Leonel, da agência de viagens Agaxtur.

Paulo Padula, gerente comercial de voos do site Decolar.com., confirma a tendência. “Desde sempre percebemos que os consumidores não deixam de viajar, apenas se adaptam e escolhem outros destinos ou períodos considerados pouco tradicionais.”

Os destinos mais buscados atualmente são Santiago (Chile) e Cancún (México), segundo a Abav. A crise na Argentina também tem colaborado para aumentar o interesse do turista em visitar o país. De acordo com a Decolar.com, na semana entre 7 e 13 de maio houve um crescimento de 6% nas buscas no site por viagens para o país vizinho, comparado com a média das últimas 4 semanas.

Ajustes

Luísa Ferreira dos Santos em frente à Golden Gate, em São Francisco. Ela conta que só faz os passeios que realmente quer e não os que dizem que 'tem que fazer'. (Foto: Arquivo Pessoal)

Luísa Ferreira dos Santos em frente à Golden Gate, em São Francisco. Ela conta que só faz os passeios que realmente quer e não os que dizem que 'tem que fazer'. (Foto: Arquivo Pessoal)

Adequar os gastos ao câmbio foi uma saída encontrada por Luísa Ferreira dos Santos, 28 anos, que programou uma viagem longa, de 4 meses, e partiu em março deste ano de Recife (PE) rumo ao México. Em abril, ela chegou aos EUA.

“Achei tudo aqui [nos EUA] muito mais caro do que pensava - em grande parte pela alta do dólar”, conta. “Deixei de fazer alguns passeios, como visitar Alcatraz ou ir até as vinícolas de São Francisco, porque iriam extrapolar o orçamento.”

Ela, que mantém o blog Janelas Abertas sobre dicas de viagens, conta que pesquisa em sites para encontrar lugares baratos para comer e deslocamento mais em conta entre as cidades, evita fazer compras, anota em um aplicativo os gastos e prioriza os passeios que realmente tem vontade de fazer. “Alcatraz, por exemplo, não era tão importante para mim, então não fui só porque dizem que ‘tem que ir’”, ressalta.

Dicas para uma viagem mais econômica

O G1 ouviu as agências de viagens e os turistas e reuniu algumas dicas deles para quem quer viajar sem estourar o orçamento.

  • Tente planejar a viagem com quatro ou mais meses de antecedência para que, quando chegar a data de saída, as parcelas já estejam quitadas;
  • Fique de olho nas promoções e nos 'saldões de pacotes'. Algumas agências reduzem o câmbio do dia ou fecham pacotes com câmbio congelado;
  • Tente fazer roteiros mais curtos. Em vez de 8 dias, prefira os de 7 dias ou menos;
  • Feche pacotes incluindo ingressos para todos os passeios possíveis. Assim, quando chegar ao destino, a maior parte das despesas já está com o custo previsto no orçamento;
  • Esqueça as lembrancinhas. Economizar nas compras pode fazer diferença no gasto total;
  • Para gastos durante a viagem ao exterior, opte pelo cartão pré-pago ou moeda em espécie para limitar os gastos com antecedência;
  • Como o café da manhã geralmente está incluído nos custos da hospedagem, faça uma refeição completa e, durante o dia, opte por sanduíches ou snacks. Aposte no jantar para recuperar as energias e economizar um dinheiro;
  • Faça programas que realmente goste. Evite gastar com passeios que todo mundo diz que 'tem que ir';
  • Evite usar o cartão de crédito. A fatura vem na cotação do dia e inclui o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) que é de 6,38%.

G1

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