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Domingo, 18 de Junho de 2017

Uerj tem geração de alunos que não sabe o que é estudar em instituição sem crise

Matheus é um dos 9 mil estudantes cotistas da instituição. Destes, 7,8 mil recebem R$ 450 por mês para ajudar no sustento, permitindo que tenham acesso ao ensino. Atualmente, estes alunos e os que recebem outros tipos de bolsas, relacionadas à extensão e iniciação científica, estão sem receber há dois meses.

Rafaele Ferreira, colega de curso de Matheus, conta que além da bolsa da Uerj recebe uma verba de iniciação científica, depositada com mais regularidade e com a qual ela consegue pagar as despesas. Para conseguir se sustentar, ela busca ocupações alternativas.

“Eu corto cabelo, faço animação aos finais de semana. Às vezes aparece, às vezes não aparece a oportunidade. Aí a gente fica nessa incerteza”, explicou Rafaele.

 

Entrada do prédio principal do Campus Maracanã da Uerj (Foto: Cristina Boeckel/ G1)
Entrada do prédio principal do Campus Maracanã da Uerj (Foto: Cristina Boeckel/ G1)

 

Pior crise da história, diz reitor

Em entrevista ao G1, o reitor da Uerj, Ruy Garcia Marques, confirma que esta é a pior crise da história da instituição. Ele não nega o rótulo de “calamidade” dado à proporção da crise que atinge a Uerj. Ele destaca que a instituição segue funcionando, formando profissionais de qualidade, mas não nega as dificuldades de funcionamento.

“Nós vivemos uma calamidade universitária, estudantil. Vivemos essa calamidade. Isso já vinha antes. E claro que com a não volta à normalidade, cada vez estamos piores, cada vez devendo mais às empresas”, explicou Ruy Garcia Marques, reitor da Uerj.

 

De acordo com Garcia Marques, a crise se reflete na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), que também está pagando as bolsas dos pesquisadores com atraso. O último pagamento recebido pelos pesquisadores foi o do mês de março.

Bandejão fechado

O Governo do Estado do Rio de Janeiro deve R$ 300 milhões à Uerj, pelos cálculos da instituição. Nesta conta entram os pagamentos dos salários de abril, maio e o 13º salário de 2016 dos servidores da instituição, além dos contratos com fornecedores que cuidam da limpeza, segurança e manutenção dos elevadores, por exemplo.

Os serviços da instituição atualmente funcionam em condições mínimas. O bandejão do Campus Maracanã, o principal da instituição, que oferecia cinco mil refeições por dia a preços populares, está fechado desde 16 de janeiro.

Bandejão do Campus Maracanã da Uerj está fechado (Foto: Cristina Boeckel/ G1)
Bandejão do Campus Maracanã da Uerj está fechado (Foto: Cristina Boeckel/ G1)

Natália Trindade, estudante do curso de Ciências Sociais e coordenadora geral do DCE da Uerj, destaca a importância do caráter popular da Uerj e que ele precisa ser mantido, mesmo com a crise. Ela conta que é preciso que os alunos tenham consciência de que estudar na instituição vale muito a pena, apesar da vontade de fazer mais pelos alunos esbarrar na falta de dinheiro.

“A gente gostaria de estar lutando por outras coisas. A gente tem o projeto, desde 2015, que é garantir o bandejão no campus de São Gonçalo e no Cap [Colégio de Aplicação da Uerj], que é o colégio de aplicação, mas a gente não consegue tirar isso do papel, mesmo já tendo construído projeto, mesmo já tendo aprovado o orçamento indicando que o governo do estado deve gastar dinheiro com isso porque o estado não tem dinheiro”, explicou Natália.

O reitor da Uerj, que afirma que esta é a pior crise que enfrenta desde que entrou na universidade, aos 18 anos, como calouro da Faculdade de Medicina em 1973. Ainda assim, ele acredita que a instituição vai se recuperar do período de turbulência.

“A Uerj vai sair fortalecida dessa crise, sem dúvida nenhuma. Porque nós continuamos crescendo, nos fortalecendo com todos esses problemas que vem sendo colocados em cima de nós”, ressaltou Ruy Garcia Marques.
 

Cartaz feito para estimular os estudantes a seguir acreditando na instituição. (Foto: Cristina Boeckel/ G1)
Cartaz feito para estimular os estudantes a seguir acreditando na instituição. (Foto: Cristina Boeckel/ G1)

O G1 questionou o governo do Estado e a Faperj sobre as perspectivas de regularização de pagamentos a funcionários, bolsas e fornecedores da Uerj. Confira os posicionamentos abaixo:

Faperj

A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) informa que o depósito das bolsas tem sido feito após o pagamento do salário dos servidores, cujo calendário é estabelecido pela Secretaria de Estado de Fazenda. A última bolsa paga foi referente a março. O processo de liberação dos recursos continua sendo acompanhado pela SECTDS e por pesquisadores integrantes da comissão criada pelo secretário Pedro Fernandes junto à Secretaria de Fazenda para dar mais transparência a todo o processo de quitação das bolsas.

Governo do Estado

Logo após a publicação da sanção do Regime de Recuperação Fiscal, no Diário Oficial da União, em 22/05, o governo do Estado do Rio de Janeiro iniciou imediatamente as conversas com o governo federal para a homologação do plano estadual. A expectativa é que essas conversas evoluam satisfatoriamente, visando à estabilidade financeira do Estado, assim como a regularização dos salários dos servidores públicos estaduais o mais rapidamente possível.

G1

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