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Sábado, 25 de Julho de 2026
Ataques de drones aterrorizam civis no Sudão: "Não dá para se esconder"
População relata medo constante de ataques aéreos em El-Obeid, cidade estratégica do país com mais de meio milhão de habitantes
"Você não pode se esconder de um ataque de drone", diz Elsadig. Para o jovem de 27 anos, essa é a aterrorizante realidade da vida em El-Obeid, cidade sitiada do Sudão, onde até a rotina mais simples carrega consigo a ameaça de uma morte repentina.
Durante grande parte da guerra civil sudanesa, iniciada há mais de três anos, os civis temiam os combates por terra. Em El-Obeid, um estratégico polo comercial e de ajuda humanitária que abriga mais de meio milhão de pessoas, muitos agora temem o que vem do céu.
No final de junho, Elsadig estava sentado em um posto de caminhões-pipa quando um ataque de drone atingiu a área, decepando sua perna esquerda.
Nas proximidades, Ahmado, um motorista de caminhão de esgoto de 42 anos, estava trabalhando quando o mesmo ataque atingiu um grupo de caminhões-pipa. Seu filho de 9 anos, que havia ido ao seu encontro após a escola, foi morto, junto de dois de seus colegas.
"Meu dia havia começado como qualquer outro. Havia drones voando sobre nossas cabeças, mas eu jamais imaginei que meu filho ou eu nos tornaríamos um alvo", disse o motorista à CNN.
Sua família procurou a criança por horas antes de encontrar o corpo do menino dentro do caminhão carbonizado, após o fogo ter se apagado.
A CNN está identificando Elsadig e Ahmado apenas pelos primeiros nomes porque eles temem por sua segurança.
"Quando ouvimos que há um drone no ar, tentamos nos abrigar em um prédio de concreto", disse Elsadig à reportagem. "Mas ele vem de repente — não sabemos quando nem onde (vai atacar)."
O ataque à cidade, que serve como um campo de batalha estratégico na luta entre as duas forças militares rivais do Sudão, evidencia como os drones estão remodelando uma guerra que matou dezenas de milhares de pessoas, deslocou mais de 14 milhões e desencadeou o que as Nações Unidas descrevem como a pior crise humanitária do mundo.
A guerra eclodiu em abril de 2023 após os ex-aliados Abdel Fattah al-Burhan, chefe das SAF (Forças Armadas do Sudão), e Mohamed Hamdan Dagalo, conhecido como Hemedti, líder das paramilitares RSF (Forças de Apoio Rápido), romperem em uma disputa pelo poder. Os dois tomaram o poder juntos após derrubar o governo de liderança civil em um golpe em 2021. Eles então se tornaram rivais em uma batalha pelo controle do Sudão.
Agora, à medida que drones fabricados no exterior chegam em grande quantidade ao Sudão, as Nações Unidas alertam que o conflito está "à beira de entrar em mais uma nova fase, ainda mais letal". Somente durante os primeiros quatro meses de 2026, ataques de drones mataram pelo menos 880 civis e responderam por mais de 80% das mortes de civis registradas pela ONU.
A nova arma da guerra
O que começou como uma guerra terrestre evoluiu para uma batalha travada cada vez mais pelo ar.
Apoiadas por fornecedores estrangeiros, tanto a SAF quanto a RSF expandiram suas frotas de drones, desde drones comerciais modificados até sistemas militares avançados.
De acordo com o ADF (Africa Defense Forum), uma revista militar e de segurança publicada pelo Comando dos Estados Unidos para a África, conhecido como Africom, ambos os lados deslocaram "suas táticas para armas aéreas e se afastaram das forças terrestres, que em grande parte chegaram a um impasse".
O ADF informou que drones fornecidos pela Turquia — incluindo os Bayraktar TB2s, que podem voar por longos períodos, transportar explosivos e têm custo relativamente baixo — ajudaram a SAF a expulsar a RSF da capital do Sudão, Cartum, no ano passado.
A Turquia afirmou que apoia a soberania do Sudão e os esforços de paz, com o presidente turco Recep Tayyip Erdogan recebendo o chefe da SAF, al-Burhan, em Ancara no mês passado.
A RSF também expandiu suas operações com drones, utilizando drones FH-95 de fabricação chinesa, capazes de atingir alvos a longa distância. Alguns dos sistemas foram vinculados a fornecedores nos Emirados Árabes Unidos. O Military Africa, uma publicação de defesa, também informou que drones de fabricação turca apareceram no lado da RSF, dificultando "identificar quem é responsável por ataques individuais contra civis".
Os Emirados Árabes Unidos enfrentaram repetidas acusações de armar as RSF, com pesquisadores e grupos de direitos humanos rastreando armas recuperadas em Darfur — região amplamente controlada pelo grupo paramilitar — até a nação do Golfo. Os Emirados rejeitam as alegações, embora um painel do Conselho de Segurança da ONU as tenha considerado "críveis" em 2024.
Um campo de batalha sem linhas de frente
Os drones redesenharam o campo de batalha do Sudão, oferecendo um vislumbre do futuro da guerra por procuração, segundo Nate Allen, professor associado de estudos de segurança no Africa Center for Strategic Studies, sediado em Washington, DC.
Allen, que acompanha o conflito, disse à CNN que os drones são agora utilizados para monitorar movimentos inimigos, apoiar operações terrestres, atacar linhas de abastecimento e destruir infraestrutura. Mais recentemente, afirmou, eles têm sido usados cada vez mais contra infraestrutura civil e áreas populosas.
A tecnologia também alterou o ritmo da guerra. No passado, os combates frequentemente diminuíam durante a estação chuvosa do Sudão, quando as estradas alagadas dificultavam o deslocamento de tropas, armamentos pesados e suprimentos. Os drones, no entanto, podem continuar operando mesmo quando as forças terrestres são retardadas pelo clima.
"Os drones não dependem de estradas para se locomover, não ficam doentes nem atolam na lama", disse Allen. "Ambos os lados continuam a usar drones, especialmente os de maior alcance e resistência, para atacar uns aos outros durante a estação chuvosa, quando o deslocamento de tropas e veículos poderia ser limitado."
Mas, à medida que os drones expandiram o campo de batalha, eles também trouxeram a guerra para mais dentro da vida civil. A distância das linhas de frente não é mais garantia de segurança. Residências, mercados e infraestrutura crítica estão cada vez mais ao alcance.
Vivendo sob os drones
Em El-Obeid e em todo o Sudão, moradores dizem que o som de drones sobrevoando a região tornou-se parte do cotidiano.
A escalada tem sido particularmente severa em El-Obeid, que suportou o que a ONU descreve como "condições de cerco", com rotas de suprimentos comprometidas, pelos últimos 18 meses, apesar de permanecer sob controle das SAF.
Como capital do Cordofão do Norte, a cidade está situada em rotas importantes que ligam Cartum ao Darfur, à região mais ampla do Cordofão e ao sul do Sudão. Essa posição a tornou um alvo estratégico tanto para as SAF quanto para as RSF. A cidade também abriga pelo menos 100.000 pessoas que fugiram da violência em outras partes do país.
O chefe de direitos humanos da ONU, Volker Türk, afirmou que somente em junho seu escritório verificou 15 ataques de drones na cidade e arredores, que mataram pelo menos 45 civis, alertando que o número real de mortos provavelmente era muito maior.
Türk disse que "drones lançados por ambos os lados atingiram repetidamente mercados, escolas, postos de combustível, infraestrutura hídrica e veículos civis" em todo o Cordofão, prejudicando o acesso a alimentos, água potável, assistência médica e outros serviços essenciais.
Os ataques também dificultaram a entrega de ajuda humanitária. No início deste mês, um drone atingiu um caminhão pertencente à Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) que transportava 50 toneladas de suprimentos de socorro para famílias deslocadas — o segundo incidente desse tipo envolvendo um caminhão de ajuda do ACNUR neste ano, segundo a agência.
Moses Okello, pesquisador sênior do programa do Chifre da África do Instituto de Estudos de Segurança, disse à CNN que os ataques parecem projetados para paralisar a capacidade de funcionamento da cidade, e não apenas para atingir alvos militares.
"Drones tanto das RSF quanto das SAF causam danos semelhantes à população civil", afirmou. Esses ataques "parecem ser deliberados contra infraestruturas de uso duplo (civil e militar), não como dano colateral, mas como uma tática militar central."
Os moradores dizem que os efeitos são sentidos muito tempo depois que cada ataque termina.
Rehab, de 48 anos, cuja casa foi destruída em um ataque de drone em um campo de deslocados em El-Obeid em junho, disse que as últimas semanas foram algumas das mais difíceis desde o início da guerra.
"Os ataques tornaram-se tão frequentes que sentimos como se a guerra tivesse recomeçado", disse ela à CNN.
"Durante todo o dia, drones circulam sobre nossas cabeças e ouvimos constantemente o som deles. As pessoas agora têm medo de se reunir em qualquer lugar, mesmo que para se ajudarem."
Agências humanitárias alertam que os ataques cada vez mais intensos estão deixando os civis em uma situação cada vez mais desesperadora.
"Famílias em El-Obeid estão perdendo seus filhos, seus membros e suas casas", disse Shashwat Saraf, diretor-país do Norwegian Refugee Council no Sudão, à CNN. "Nada é poupado, e aqueles que sobrevivem aos ataques estão passando fome, sem nenhum lugar para onde ir."
Para Elsadig, que disse ter sobrevivido a três ataques anteriores de drones antes de o quarto lhe custar uma perna, cada saída de casa carrega o medo de que possa ser a última.
"Quando você sai, não sabe se vai voltar", disse ele. "Você pode se encontrar sentado em algum lugar e, de repente, há um míssil ao seu lado. Você pode viver, ou pode morrer. Você não sabe."
CNN








