Esporte | Internacional
Quinta-feira, 01 de Janeiro de 2026
Barcellos projeta futuro do Inter: ‘Tenho certeza que 2026 vai ser um ano bem melhor’
Após 2025 de dificuldades dentro e fora de campo, clube aposta em reestruturação no futebol e equilíbrio orçamentário no próximo ano
O último ano da gestão Alessandro Barcellos bate na porta. Após escapar do rebaixamento no último jogo de 2025, o presidente do Inter projeta a próxima temporada a partir de uma reformulação total dentro do departamento de futebol realizada após o fim do Brasileirão.
Em entrevista exclusiva ao jornal Zero Hora, o dirigente comentou sobre o perfil das contratações a serem feitas, com possível anúncio nos primeiros dias do novo ano, a situação financeira do clube e arquiteta o ano de transição na gestão colorada. Confira.
- Qual sua avaliação do ano do Inter e qual é o sentimento que fica depois de tudo que aconteceu?
Foi um ano distinto em dois semestres. O primeiro semestre positivo, onde a gente conseguiu cumprir com os objetivos que eram o título gaúcho e a classificação na Libertadores em primeiro lugar do grupo. Mas um segundo semestre muito ruim, onde nós tivemos uma queda de rendimento e, consequentemente, chegando na última rodada com a possibilidade de rebaixamento. A avaliação no geral sempre, pela fotografia do final do ano, tende a ser negativa do ponto de vista esportivo, o que nos colocou com a missão de reformular algumas questões no futebol, a começar pela parte gestora, onde a gente fez uma transformação e uma mudança já na parte executiva, na diretoria esportiva e também no comando técnico da equipe.
Tínhamos a convicção também de que esse elenco teria condições de ser mais competitivo e de estar brigando por posições melhores.
— Alessandro Barcellos, presidente do Inter
- O senhor tem ciência de qual foi o ponto da virada, o que aconteceu para essa queda de rendimento?
Um conjunto de fatores. O tema da redução de desempenho de uma equipe que tinha a manutenção de grande parte dela desde 2024, com um segundo semestre muito positivo, e com a conquista do Campeonato Gaúcho, e com a classificação da Libertadores nos dava todos os sinais de que era possível a manutenção, ou até mesmo a melhora, com a parada da Copa do Mundo (de Clubes). São vários fatores, desde os rendimentos individuais, que não foram os mesmos, como o rendimento coletivo, como a parte mental. No sentido anímico, nós tivemos uma queda importante e a recuperação disso, talvez pelo perfil já de trabalho do departamento, da comissão técnica, principalmente, anterior, que era do Roger, já não tinha mais a capacidade de retomar esse anímico e buscamos uma retomada com a chegada do Ramón (Díaz), que tinha esse perfil muito forte nos trabalhos que tinha realizado, mas também não conseguiu reverter isso. A gente só conseguiu reverter isso com a chegada do Abel numa conjunção de resultados na última rodada, estarmos com a manutenção da Série A. Tivemos a saída de jogadores que não estavam rendendo bem, é verdade, mas que saíram, tivemos uma decisão colegiada nossa, da direção, de não fazermos grandes investimentos na janela do meio do ano, uma vez que tínhamos o compromisso de buscarmos reduzir os custos que já estavam, de alguma forma, desviados do orçamento e também buscarmos uma redução do endividamento. Salvo o investimento no Alan Rodriguez, que foi o investimento mais alto que a gente fez na janela, de cerca de 4 milhões de dólares. Tínhamos a convicção também de que esse elenco teria condições de ser mais competitivo e de estar brigando por posições melhores.
- Por que o primeiro ataque foi uma cirurgia no departamento de futebol do clube?
Toda vez que você não tem resultados, há necessidade de fazer mudanças. A chegada do Fabinho (diretor executivo), a chegada do Abel como nosso diretor técnico e não como treinador, e a chegada do (Paulo) Pezzolano, com um trabalho característico, um treinador que estava no futebol inglês até pouco tempo atrás, um treinador que foi do futebol europeu, um treinador muito atualizado e com trabalhos importantes aqui no Brasil. O Fabinho, atual campeão da Copa do Brasil, cerca de oito anos desempenhando funções no Flamengo que construíram também esse momento forte que o Flamengo vive hoje, e o Abel dispensa com apresentações. Isso demonstra um compromisso forte nosso para 2026 de um departamento de futebol diferente e que busca aprimorar os processos, melhorar a questão técnica, tática e também a questão anímica. O trabalho que nós viemos fazendo é um trabalho muito bom, como eu disse até a metade do ano, mas o futebol é feito de ciclos e a gente faz essa mudança no intuito de melhorar, de qualificar e de buscar corrigir alguns erros. Evidentemente não foram só do departamento de futebol, erros que a gestão como um todo, o Conselho de Gestão, assume como suas também, de redução de investimento, manutenção, redução de custos. São sempre questões que trabalham lado a lado no momento que o futebol brasileiro está extremamente competitivo, no momento que o futebol brasileiro tem aumentado os seus investimentos em alguns clubes que despontam na parte de cima da tabela. Lidar com essas dificuldades fundamentais vai exigir cada vez mais de nós.
- Depois do fim do Brasileirão da pandemia, o senhor optou por trocar de treinador, trazer o Miguel Ángel Ramírez e não continuar com o Abel. Por que o senhor foi atrás do Abel, e se o senhor vê isso como uma atitude de humildade?
Eu procurei o Abel em 2024 para ser o nosso diretor técnico, infelizmente ele não conseguiu aceitar. Mas foi uma conversa muito boa e agora em 2025 foi a ideia de que ele pudesse trazer algo novo para os últimos dois jogos. Tudo isso fez parte de um momento de remobilização que o clube precisava fazer, tanto internamente quanto externamente. O Abel mostrou também esse desprendimento e essa relação forte com o clube e com a torcida. Foi fundamental. Não tem relação um momento com o outro. São coisas diferentes, momentos diferentes, e o próprio Abel teve inúmeras passagens pelo clube. O que a gente considera e acha fundamental é ele ter aceitado esse desafio da forma como foi. Isso foi fundamental para que a gente pudesse hoje estar falando aqui em 2026 com esperança, com expectativa. É obrigação nossa pensar, acima de tudo, no clube. O Internacional não tem espaço para vaidades, para diferenças que não sejam superadas em favor do clube, não verão isso da minha parte em momento algum e nunca tive essa postura.
- O que o senhor espera que o Abel faça dentro dessa função e o que ele pode agregar em relação ao antecessor (D’Alessandro)?
São perfis um pouco distintos. Tenho certeza que o D'Ale contribuiu muito para os processos, ajudou muito internamente na relação. O perfil do Abel é um um pouco diferente, até pela experiência do Abel como treinador, também na função de diretor técnico. A nossa expectativa é que o Abel consiga fazer aquilo que a gente sabe que é da natureza profissional dele: conseguir essa relação com o comando técnico, deixar o treinador focado nas questões de campo. Tratar dos temas que são alheios às questões tática e técnica, poder ajustar junto com os jogadores, com a comissão técnica, aquilo que o Fabinho como executivo e a equipe e o restante do staff do futebol traçam como objetivos. Ele vai participar de todos os processos que acontecem dentro do futebol. Não tem reuniões e encaminhamentos que não passem também pela opinião ou pelo conhecimento do Abel. Eu falava agora há pouco numa conversa que tive tanto com o Abel, Fabinho e Pezzolano, da importância da sinergia e da complementariedade de perfis que a gente está montando nesse time que vai comandar o futebol. Esse é um perfil que se complementa, a forma como o Fabinho faz o seu trabalho, bastante prático, objetivo. A questão do Abel de ser esse profissional com grande experiência e com conhecimento das nuances do vestiário. E também a objetividade, a forma intensa com que o Paulo exerce os seus trabalhos. Tenho absoluta certeza que essa conjunção de fatores e de características vão ser muito positivas para o Internacional em 2026.
- Dentro do cenário econômico do Inter e do futebol brasileiro, onde o Fabinho pode agir com maior assertividade?
O Fabinho tem um conhecimento muito grande de mercado, traz uma bagagem muito grande na relação com o mercado e isso com certeza vai ser muito importante para que a gente possa estabelecer condições de negócios com mais criatividade. Vai nos ajudar muito nesse momento de maior dificuldade econômica. Todos estão cientes dessas questões e todos eles comprometidos em nos ajudar a achar as melhores soluções nesse cenário que não é um cenário fácil para ninguém, não é só para o Internacional, mas que a gente vai, sem dúvida nenhuma, fazer de uma forma mais eficiente do que a gente vinha fazendo e pretende fazer agora.
- O Pezzolano, como é que tem sido a relação com ele nesses primeiros dias e se já tem uma lista de compras passada para ele, para a direção e ao mercado no começo do ano?
O Pezzolano é um cara muito intenso, um cara que trabalha bastante. A importância de ter o departamento remontado dá essa autonomia aos profissionais de fazerem esse trabalho e eu acho que isso é fundamental, portanto, Fabinho, Abel, Pezzolano, o próprio Filipe Dallegrave, o próprio Ricardo Sobrinho, são as pessoas que estão mais à frente nesse momento das questões do futebol. Tenho tido o trabalho de monitorar isso na medida em que tem alguma decisão a ser tomada. A gente espera aí, na virada do ano, também estar trazendo notícias, informações de chegadas importantes, porque esse é o trabalho que a gente precisa fazer.
- Quanto o Inter vai agir no mercado para reforçar o time?
Nós, evidente que temos o diagnóstico das carências. Sabemos que o mercado é um mercado hoje bastante inflacionado e que, portanto, tem que ter muito trabalho de busca de situações que possam caber dentro daquilo que o clube pode assumir como compromisso. Há um objetivo de mudanças em vários setores da equipe, tanto por necessidade técnica também, mas também por necessidade de ter um elenco capaz de garantir a temporada. A falta de uma competição internacional em nada diminui a necessidade que a gente tem de buscar reforços para que a gente mude em vários setores da equipe, principalmente no fator físico também, que é um fator que nos coloca como necessidade de a gente ter jogadores com capacidade física e com volume, porque é uma forma como o Pezzolano joga, com intensidade, e isso precisa de jogadores com essas características. Sem contar algumas saídas, a saída do Vitão, que nos coloca na necessidade também de uma reposição de um jogador com características, enfim, apropriadas para assumir também a titularidade.
Tem de buscar reforços para que a gente mude em vários setores da equipe, principalmente no fator físico.
— Alessandro Barcellos, presidente do Inter
- Em que pé o senhor imagina que vai estar o Inter para o começo do Campeonato Brasileiro?
Apesar do resultado ruim que a gente teve, vocês já ouviram em entrevistas tanto do Abel quanto do próprio Pezzolano, falando de uma qualidade no elenco. O que nós estamos aqui trabalhando é para melhorar a eficiência e a qualidade desse elenco, mas de fato não é possível também se considerar que não existem pontos positivos no elenco. Então na medida em que a gente vai ter agora uma condição diferente com o conjunto de elementos levantados sobre posições que são necessárias, com o conjunto de atletas também levantados que podem cobrir essas nossas lacunas, as coisas começam a ter uma certa capacidade de execução melhor e é isso que a gente espera para que a gente chegue no início do Campeonato Brasileiro já com boa parte do elenco formatado, se isso vai ser possível vai depender da dinâmica de mercado, que faz com que muitas vezes alguns jogadores que a gente tem interesse, por uma razão ou outra, não se coloque à disposição no início e mais adiante da janela se facilite a condição. Tudo isso vai depender desse trabalho que está sendo feito, mas a nossa intenção é o mais rápido possível termos um grupo completo, porque o Campeonato entre janeiro e fevereiro tem cinco rodadas, e a gente já tem uma parte importante do Campeonato. É importante a gente ter esse elenco formado o quanto antes para enfrentar esses jogos iniciais do Campeonato.
- Dois nomes que surgiram de notícia são a volta do Fernando e a contratação do Luiz Gustavo, jogadores mais próximos dos 40 anos. São perfis que, apesar da idade, se encaixam na ideia de intensidade do Pezzolano?
Uma coisa é a média de idade de equipe, e aí há de se considerar circunstâncias e características. Outra coisa é você ter um número de jogadores no seu elenco, não estou dizendo no time titular, com idade mais avançada, mas que ainda tem uma capacidade de entrega importante. Isso tem que ser sempre considerado. A gente costuma falar que é uma certa capacidade de olhar as posições e as suas valências e que elas se equiparem para que você não tenha uma equipe com muita idade ou uma equipe muito jovem. É esse equilíbrio que é importante, e nesse equilíbrio a gente olha, por óbvio, para jogadores que foram citados como jogadores que têm uma capacidade de entrega ainda, mas que precisam estar dentro de um elenco mais jovem. Isso facilita, inclusive, para eles. Então, nesse balanço, nesse momento, é o que a gente está, de alguma forma, olhando com mais critério. É isso que a gente procura buscar aqui: o equilíbrio.
- As contratações feitas no meio do ano não renderam o esperado. Vai ter uma mudança na política de contratação?
No meio do ano tivemos uma necessidade de buscar um reforço pontual porque tínhamos e temos ainda restrições financeiras. Mas ela muda na medida em que você planeja o ano, olhando para trás e vendo as dificuldades que tivemos, como eu disse, no aspecto, talvez, de imposição física, na média de altura, na média de idade. Esse olhar sistêmico precisa estar presente nesse momento para nos dar uma força coletiva maior. Esse é o trabalho, esse é o desafio diferente da janela do meio do ano, onde nós tínhamos uma avaliação, e erramos nessa avaliação, de que o elenco que tínhamos era possível mantermos uma competitividade, com uma janela um pouco mais focada em composição de elenco e não focada em jogadores que pudessem estar chegando como titulares indiscutíveis. Eu acho que isso muda, e a gente precisa aqui ter esse olhar de que, nos três setores nós precisamos buscar jogadores que cheguem para nos ajudar de uma forma diferente, que foi a avaliação que foi feita no meio do ano.
- A negociação do Vitão é um exemplo da diferença econômica hoje em dia entre os clubes, porque o Inter vai acabar negociando o Vitão com um concorrente direto (Flamengo). Isso escancara a realidade do futebol brasileiro e das finanças do Inter?
Não diria que é do Inter. Estou vendo o Botafogo vender jogador para o Palmeiras, eu estou vendo o Flamengo fazendo oferta para o jogador do Cruzeiro, estou vendo negociações já há algum tempo no futebol brasileiro… Isso escancara uma diferença de alguns clubes para outros, não para o Inter apenas. Jogadores que recentemente saíram do Grêmio para o Botafogo. O Vitão é o zagueiro mais caro do futebol brasileiro na história. O valor total do Vitão está avaliado em mais de 13 milhões de euros. É um jogador que veio para o Beira-Rio sem custo para o Internacional, e hoje ele foi avaliado em uma negociação de mais de 13 milhões de euros. Isso tem que ser considerado como algo relevante no contexto. Aproveito a pergunta sobre finanças, para falar de outras vendas que fizemos de jogadores oriundos da nossa base. Enquanto que muito se ouviu falar de críticas da base do Internacional, nós tivemos o Gabriel Carvalho, o Ricardo Mathias e o Luis Otávio, e temos outros ativos. Outros ativos que estão no clube, no grupo profissional inclusive, e que terão muito valor para o futuro do Internacional, ainda mais recebendo minutagem e tendo tempo para jogar. Em 2025, nós tivemos 16 atletas (da base) relacionados na equipe principal. Foi um número que há muito tempo não tínhamos. Nós tivemos a dificuldade no Campeonato Brasileiro do sub-20, por quê? Porque usamos todos os jogadores que podíamos usar no profissional e jogamos o campeonato com a sub-17. Outros clubes no Brasil fizeram o mesmo, tiveram a mesma dificuldade. É uma política de formação. Nós vamos superar a meta de vendas esse ano. Por fim, também no negócio do Vitão, nós estamos colocando fim a uma dívida (pela compra de Thiago Maia) que era importante dentro do cenário do clube, uma dívida que inclusive não venceria dentro da nossa gestão, uma dívida que venceria na próxima gestão e nós antecipamos o pagamento. Isso é fundamental também para quem pensa no clube em médio e longo prazo.
- O quanto desse dinheiro das vendas vai para contratações e o quanto vai para viabilizar de maneira melhor o clube?
É difícil estipular. A gente tem um orçamento para o ano que vem, um orçamento que não vai ter investimentos vultuosos dentro da realidade do clube. Eu diria que boa parte desse recurso vai ser para pagarmos dívidas e boa parte disso é para manutenção do clube. É evidente que uma parte disso também vai ser usada para investimento, mas não tem um valor carimbado para isso. A gente tem trabalhado dentro daquilo que a gente projeta para o ano seguinte.
A gente tem um orçamento para o ano que vem, um orçamento que não vai ter investimentos vultuosos dentro da realidade do clube.
— Alessandro Barcellos, presidente do Inter
- O Inter tem jogador que é inegociável no momento?
Não. Não tem jogador que é inegociável. Agora, tem propostas que são indecentes e essas propostas indecentes a gente nem considera. Recentemente tivemos propostas indecentes e foi comentado pela imprensa, e o Internacional nem cogitou sobre tudo isso. É um jogador (Bruno Gomes) muito importante para nós e, portanto, não temos interesse em venda, salvo que tenha uma proposta que seja irrecusável. Teriam outros exemplos também. Agora é organizar o fluxo para que a gente possa ter um ano com os nossos compromissos internos, como tivemos em 2025, em dia para que a gente não tivesse nenhum problema. Ao contrário do que foi dito em algum momento, nós não tivemos dificuldade para cumprir com os nossos compromissos internos. Tivemos, por opção, alguns atrasos de pagamentos de terceiros que buscamos até o final desse ano regularizar. Que a gente possa fazer um ano de 2026, do ponto de vista financeiro, melhor do que o ano de 2025, um ano que a gente sai de um 2024 com um prejuízo acima de R$ 90 milhões causado pelas enchentes, nunca tínhamos na nossa gestão um déficit, tivemos o primeiro déficit, foi pequeno, mas foi um déficit. Nos comprometemos a recuperar esse déficit e se tudo der certo vamos recuperar esse déficit em 2025, se tudo der certo vamos reduzir a dívida em 2025. Tudo fruto de um trabalho duro que não foi melhor pelos riscos que corremos dentro de campo. Isso tudo acumula para que 2026 seja um ano de transição. Não estamos achando que está tudo bem, pelo contrário, temos um desafio gigante pela frente. Nós estamos dispostos, mesmo nesse último ano de gestão, a não perder de vista o campo, mas a contribuir muito fortemente para que esse ano de transição seja um ano em que o clube possa planejar os seus próximos anos de uma forma diferente.
A proposta das debêntures foi a principal derrota política da sua gestão e vocês já conseguiram formatar um outro modelo que possa dar maior fôlego financeiro ao Inter?
Eu acho que foi uma derrota importante, não para a gestão, mas para o clube. Ali se tinha oportunidade de alongar o endividamento, uma parte boa do endividamento. Nós fizemos uma renegociação com a Receita, onde equacionamos a dívida fiscal nos próximos anos, com uma economia de quase R$ 60 milhões, esta seria uma segunda parte que utilizamos R$ 200 milhões para uma parte importante de equacionamento da dívida, tanto com bancos quanto com credores. Daria um deságio, sem contar uma redução de juros e um alongamento por cinco anos. Trabalhamos junto com o Conselho, a Comissão do Conselho, para que a gente possa ter propostas de reestruturação financeira que envolvam o clube como um todo em um período de tempo maior. Não se faz uma reestruturação financeira de um ano para outro, se precisa de alguns anos e precisa-se ter o compromisso daqueles que fazem parte hoje da vida política do clube de assumir isso. A gente entende que isso é fundamental. Nesses cinco anos de gestão, a gente trabalhou muito no sentido de tentar manter o endividamento sob controle e buscar uma vitória dentro de campo que pudesse nos evoluir para um círculo virtuoso. Os custos do futebol brasileiro de 2019 para 2025 subiram estratosfericamente, as dívidas dos clubes brasileiros, só na Série A, saíram de R$ 9 bilhões para acima dos R$ 16 bilhões, isso demonstra o quanto o futebol brasileiro tem tido dificuldades de pagar suas dívidas. O Internacional tem a sua dívida mantida, infelizmente, num patamar alto, principalmente, a curto prazo. Se você considerar o crescimento da Selic de 2020 para cá, nós hoje temos uma dívida constante, que não consegue ser abatida. Precisamos resolver parte dessa dívida de forma mais nominal, de forma mais efetiva. Só será possível com recurso novo. As receitas comerciais do clube cresceram bastante nesse último período. Só em 2025, nós tivemos 46% de crescimento projetado da receita, vai ser o maior salto na receita comercial do clube. Esse dado nos deixa por um lado satisfeito pelo crescimento, mas mostra que só aumentar a receita é insuficiente. Precisamos muito de dinheiro novo. A nossa ideia é começar a implementar isso, se possível, ainda em 2026. Só nas receitas de televisão, o Internacional acrescentou em torno de R$ 40, 50 milhões de receita nova entre televisão, publicidade, placas. É um ganho muito expressivo. Há ainda o esforço a ser feito em termos de custos e despesas, mas fundamentalmente há uma necessidade da gente buscar um recurso novo para fazer enfrentamento da dívida.
As receitas comerciais do clube cresceram bastante nesse último período. Só aumentar a receita é insuficiente.
— Alessandro Barcellos, presidente do Inter
- Como está a situação do patrocínio do clube nesse momento?
De fato nós notificamos agora no final do ano o nosso patrocinador pelo inadimplemento de parcelas e isso vai levar, caso não aconteça, a revogação do contrato, o cancelamento do contrato e o nosso departamento de marketing já tem trabalhado com outras possibilidades que muito provavelmente no início da temporada, se esta questão não for resolvida com o atual patrocinador, será encaminhada a outra solução, tenho certeza com capacidade aí, importante de competitividade, manter as receitas nos mesmos patamares que a gente vinha trabalhando em 2025.
- A direção consegue ainda tocar o torcedor, tem um ruído nessa comunicação entre as duas partes?
Eu acho que quando o resultado de campo não acontece, se busca sempre a responsabilidade. Nós na direção somos os responsáveis em última instância pelos resultados, principalmente quando não são positivos. Iniciamos 2025 com expectativa lá em cima, principalmente quando confirmamos ali a vitória do Campeonato Gaúcho. Isso aumentou ainda mais a nossa expectativa. Quando essa expectativa é frustrada, é natural que o torcedor descarregue isso principalmente na direção, no presidente. Vejo como um gesto que o torcedor tem o direito e deve fazer. Há que se compreender e usar isso como elemento motivador para você. O futebol te dá isso, para você mudar, para você melhorar. Estamos recomeçando o ano depois de termos vividos momentos que eu nunca mais quero viver na minha vida, como colorado, não estou nem falando como presidente. Isso nos faz crescer enquanto dirigente, enquanto cidadãos aqui, colorados, para que a gente possa jamais deixar chegar perto disso, e fazer com que o torcedor possa viver novos momentos. Esse é o trabalho que a gente está fazendo. Quando você vê que isso está tendo algum risco, você convive com momentos de angústia, momentos de dificuldades que jamais foram vividos, pelo menos na nossa gestão. Fica um aprendizado. Ao mesmo tempo, com humildade, é trabalhar para que esses momentos não se repitam. O clube está acima de qualquer um de nós e tem que ser sempre preservado. Nós somos passageiros aqui nesse cargo, e como passageiros tentamos fazer o melhor. O clube continua, e o torcedor tem que olhar sempre para isso. Tenho certeza que 2026 vai ser um ano bem melhor, que a gente vai conseguir retomar essa relação de confiança.
- O senhor falou algumas vezes que 2026 vai ser um ano de transição, o que se pode fazer no seu último ano como presidente?
Acho que o conhecimento que a gente adquire na função de presidente, ele não pode terminar em si mesmo, e a gente precisa, até porque o clube renova suas lideranças políticas, de pessoas que não têm ou não tiveram a experiência de estar nessa função, e que mudou muito nos últimos anos, principalmente depois da pandemia. A mudança exige cada vez mais conhecimento, governança e trabalho dos clubes. A missão principal será cuidar do clube, fazer com que a gente seja mais competitivo, mas ao mesmo tempo tentar transmitir para aqueles que virão as dificuldades que têm, independentemente de matizes políticos internos, poderem contribuir para uma nova gestão, fazendo uma transição para trazer aqueles que têm o interesse em assumir este clube num momento tão difícil do futebol brasileiro, tendo informações, tendo transparência e podendo projetar algo programático para o futuro. Tem que ter um compromisso de quem sai da gestão e quem assume a gestão numa continuidade de um plano de médio e longo prazo. Poderíamos estar aqui falando de um último ano onde a gente buscaria trabalhar para que viesse uma conquista, independentemente do aspecto financeiro. Talvez um aumento do endividamento não fosse cuidado e seria uma fala mais fácil de fazer, mas não é o que se coloca para nós. O desafio é tentar trabalhar numa união do clube, na busca de soluções de médio e longo prazo que a gente possa, minimamente, contribuir para que esse ambiente seja positivo e que a gente possa fazer um ano de transição, seja de modelo de gestão, seja de forma de gestão, seja de forma organizacional, mas que a gente possa contribuir para essa transição.
GE








