Internacionais | Eleição em Portugal

Sábado, 07 de Fevereiro de 2026

Brasileiros relatam medo e incerteza com chance de vitória de candidato anti-imigração

Neste domingo (8), portugueses voltam às urnas para o 2º turno das eleições presidenciais e escolhem entre o candidato da esquerda, António José Seguro, e o da extrema direita, André Ventura.
Portugal vai às urnas para escolher seu novo presidente neste domingo (8). O candidato da esquerda, António José Seguro, e o da extrema direita, André Ventura, disputam o cargo no segundo turno das eleições presidenciais, o primeiro em 40 anos.

Eleições em Portugal: conheça o líder da ultradireita e o socialista que se enfrentam no 2º turno
Segundo pesquisas de intenção de voto feitas pela imprensa portuguesa na última semana, Seguro deve ser o vencedor da disputa. Ainda assim, brasileiros ouvidos pelo g1 relatam temer uma vitória de Ventura, que defende políticas muito mais rigorosas para o controle da imigração.

"O clima é de medo e de incerteza, e eu acho que o cidadão português, incluindo os imigrantes que estão lutando, não merecem ter este medo. Eles merecem ter sempre a esperança de que as coisas vão melhorar", defende a brasileira Letícia Bergamo, que vive há nove anos com a família em Portugal e lidera uma comunidade de apoio a mães de crianças autistas e com deficiência.
Bergamo, que tem cidadania portuguesa e é moradora de Cascais, região metropolitana de Lisboa, se diz surpresa ao descobrir que o candidato do Chega foi o mais votado entre os brasileiros nos consulados e embaixadas do Brasil:

"Eu posso ser cidadã portuguesa, mas eu sou imigrante. Não entendo isso de um imigrante que desmerece um outro. A gente está no mesmo mar. Temo por causa das ameaças, inclusive de tirar cidadanias. De interromper processos de cidadania que estão em andamento".
A também brasileira Eliane Oliveira, que chegou há três meses em Portugal para trabalhar como babá, contou que conhece muita gente que está apreensiva.

Ela entrou no país europeu com a documentação em dia, mas disse que colegas que estão por lá há algum tempo ainda estão irregulares e têm medo de não conseguirem garantir seu visto de residência por causa do endurecimento do controle causado pela nova Lei dos Estrangeiros, que entrou em vigor em outubro.

Antes, brasileiros e cidadãos de outros países onde também se fala a língua portuguesa podiam chegar como turistas e, depois, regularizar a estadia.

"Eles optam pelo outro candidato porque têm muito medo do que possa acontecer se o Ventura ganhar. Eles pensam assim: se o André Ventura ganhar, acabou. É pegar tudo que tem e ir embora, porque vai ser inviável. Vai ser quase impossível as pessoas conseguirem migrar, mesmo com o visto, sabe?", lamenta ela.
Nos últimos anos, não só em Portugal, mas em outros países europeus também, imigrantes brasileiros vêm denunciando um aumento dos casos de xenofobia, que é o preconceito com estrangeiros.

Caroline Campos, que é advogada de imigração e mora em Mafra há oito anos, afirma que, embora seja preciso observar a questão da quantidade de imigrantes no país, o tema tem sido utilizado pela extrema direita de forma indevida, como se todos os problemas apontados pelos portugueses fossem culpa dos estrangeiros:

"A única coisa que se fala é da imigração, e se esquece que temos muitos problemas em relação à saúde, à educação. Esses temas ficam de lado. Esse discurso de ódio que vem sendo propagado acaba tirando do armário certos esqueletos (...). Pessoas que antes ficavam mais receosas e não falavam nada passam a replicar esse discurso, (...) estimulados por toda essa desinformação e culpabilização da imigração no país como gerador dos problemas atuais".
'Devolvam Portugal aos portugueses'

Como parte de sua campanha anti-imigração, o partido de extrema direita Chega, do candidato André Ventura, espalhou outdoors pelo país com frases como "Devolvam Portugal aos portugueses" e "Imigrantes não devem viver de subsídios". A Justiça ordenou a retirada deles, mas a mensagem já tinha se espalhado, principalmente nas redes sociais.

Letícia Bergamo diz que, em sua opinião, a acusação não tem fundamento, já que, para receber subsídios do governo, o estrangeiro precisa estar com sua documentação em dia: "Ninguém consegue nem receber cesta básica, é muito difícil".

Eliane Oliveira concorda e ressalta que é importante já chegar ao país com o visto de trabalho em dia porque só assim se consegue acesso a moradia e conta em banco. A documentação, além de autorização de residência e a contribuição com impostos, são os requisitos para dar acesso aos benefícios.

"Quando você vem ilegal, você paga valores 'fora da casinha'. Tudo se torna muito mais difícil e mais caro também. Não é uma tarefa fácil conseguir esses subsídios não", afirma Oliveira.
Apesar do temor com a possível vitória de Ventura, a figura do presidente tem menos peso nas decisões do dia a dia em Portugal. O país segue o regime do semipresidencialismo, e questões como políticas anti-imigração são tomadas pelo primeiro-ministro.

O primeiro-ministro de Portugal é o chefe de governo — ou seja, é ele quem administra o dia a dia do país. Já o presidente não participa do cotidiano do Executivo e exerce uma função mais cerimonial e menos política.

Atualmente, o premiê português é Luis Montenegro, líder da Aliança Democrática (AD), de centro-direita. A coalização dele tem 91 dos 230 assentos no Parlamento. O Chega, de André Ventura, tem 60 - dois a mais que o Partido Socialista, de António José Seguro, que teve seu pior desempenho em quatro décadas.

Fonte: G1