Esporte | Internacional
Domingo, 10 de Maio de 2026
Companheiras no Inter, Sole Jaimes e Kelly querem inspirar como mães no futebol: "A gente pode"
No Dia das Mães, atacante e goleira das Gurias Coloradas contam como conciliam a maternidade com o futebol profissional, inclusive com a presença da conciliam filha às vezes em viagens
Dividir a rotina entre o futebol profissional e a maternidade ainda é um desafio pouco visível no esporte. No Internacional, esse equilíbrio ganha contornos especiais com Sole Jaimes e Kelly Chiavaro. Atacante e goleira, as duas estão juntas há cinco anos — dentro e fora de campo — e compartilham a criação da pequena Aurora, de dois anos.
Neste Dia das Mães, o ge acompanhou um treino das Gurias Coloradas para conhecer um pouco da rotina das atletas, que se dividem entre as obrigações e a maternidade.
– Eu sempre falei, eu gostaria de mostrar para o time feminino que a gente pode ser mãe, pode ficar grávida, pode voltar a jogar, a gente pode continuar com a nossa vida normal. E era um objetivo que eu tinha, obviamente, que eu queria muito ser mãe, mas também eu queria mostrar para as pessoas que a gente consegue também.
— Infelizmente a gente não é como os caras. que a esposa fica grávida, ela continua com a sua família. Algo que eu queria muito era ser mãe, mas também eu queria mostrar para as pessoas que a gente consegue também seguir com o futebol — contou Sole Jaimes ao ge.
Eu gostaria de mostrar que a gente pode ser mãe, pode ficar grávida e depois pode voltar a jogar, a gente pode continuar com a nossa vida normal. Era um objetivo que eu tinha. Queria mostrar que a gente consegue.
Sole Jaimes, atacante argentina de 37 anos, tem uma longa trajetória no futebol feminino. No Brasil, passou por Santos, Flamengo e 3B da Amazônia. Fora do país, atuou por Napoli (Itália), Boca Juniors (Argentina), Changchun Dazhong (China) e Lyon (França). Chegou ao Internacional no início de 2026.
Kelly Chiavaro, goleira canadense de 29 anos, também chegou ao clube recentemente. As duas se conheceram no Napoli, em 2021, quando atuaram juntas. Desde então, a parceria extrapolou o futebol e se transformou em um projeto de vida. Em 2023, nasceu Aurora.
– Obviamente no campo nós somos atletas e acho que nós fazemos muito bem ao separar as coisas. Sempre queremos o melhor para a outra. Eu acho que é uma cumplicidade muito linda, sempre foi assim desde o início. Somos duas atletas que gostam de trabalhar e somos duas atletas que respeitamos esse tema de se estamos juntas, mas também somos atletas do clube, representamos o clube – explicou Kelly.
A maternidade entrou nesse caminho de forma planejada. O desejo de ter filhos era antigo, especialmente para Sole, que sempre sonhou em ser mãe de uma menina chamada Aurora — nome escolhido em homenagem à própria mãe. A diferença de idade entre as duas e os exames médicos ajudaram a definir que seria a atacante quem engravidaria.
O processo de fertilização foi mantido em sigilo, longe do clube e da família, até a confirmação da gravidez. Naquele período, elas defendiam equipes diferentes: Kelly atuava no Flamengo, e Sole, no Santos. Curiosamente, nunca chegaram a se enfrentar como adversárias em campo.
Com a chegada de Aurora, as prioridades mudaram. O futebol segue sendo central na vida das duas, mas deixou de ocupar o primeiro lugar. Até a escolha do local para jogar passa a ser influenciada.
— Antes, nossa prioridade era o futebol, era a gente. Agora é ela. Um dia ruim aqui não importa mais quando chegamos em casa. Ela não entende o que é nosso trabalho, então não dá para levar frustração para casa — diz Kelly.
– Quando a Sole ficou grávida, eu falei, eu não posso ter uma família aqui no Rio. Eu vivia com medo todo dia. Aqui em Porto Alegre, eu me sinto muito tranquila. Obviamente, no Brasil, não é a mesma coisa que no Canadá. Só que aqui eu me sinto muito bem – completou.
Hoje, morando em Porto Alegre e defendendo o Inter, Sole, Kelly e Aurora vivem longe da família. A rede de apoio foi construída aos poucos, com amigas, colegas de clube e vizinhos.
– A verdade é que o nosso suporte somos nós mesmas. Nós temos muita sorte que em cada lugar onde vamos tem muitas pessoas carinhosas que nos ajudam e sempre a comissão é bem de boa e quer ajudar. Só que no fim do dia somos nós — conta Kelly.
Aurora já faz parte do cotidiano do futebol. Frequenta o Sesc, casa das Gurias Coloradas, conhece o ambiente do Internacional e circula pelo campo e pelas dependências do clube com naturalidade. A filha do casal já participou inclusive de viagens das delegações na época que Sole estava no Santos.
Ao falar da filha, Sole e Kelly entram em um território no qual as palavras, às vezes, parecem insuficientes. A maternidade, segundo elas, não apenas reorganizou a rotina, mas transformou a forma de enxergar o mundo.
– Você pode ter mil problemas, achar que o dia foi pesado, que nada deu certo. Chega em casa, olha para ela, e tudo fica pequeno. Você passa a viver com medo, com amor, com uma vontade enorme de ser eterna para ela. Eu só peço saúde para poder vê-la crescer. Se ela quer jogar futebol, pode seguir. E que ela acredite que tudo que ela quer ela pode conquistar, que ela não precisa depender de ninguém — afirma Sole.
No campo, Sole Jaimes e Kelly Chiavaro seguem contando a história do Inter feminino. Fora dele, aprendem diariamente a ser mães em um ambiente ainda em transformação.
A história das duas ajuda a iluminar um caminho cada vez mais visível no futebol feminino: o de mulheres que não precisam escolher entre a carreira e a maternidade, mas que constroem, com esforço e afeto, espaço para viver os dois papéis.
GE








