Notícias da Região | Cenário de reconstrução

Sexta-feira, 27 de Março de 2026

Entre destroços e promessas, Rio Bonito ainda tenta se reerguer após tornado

Entrega de donativos para famílias atingidas tem gerado questionamentos

O jornalista Deivid Souza e o cinegrafista Marlon Sheldon voltaram a Rio Bonito do Iguaçu para uma reportagem especial e comovente que mostra como a cidade enfrenta os desafios quase cinco meses após o tornado.

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A cidade de Rio Bonito do Iguaçu ainda está traumatizada. Em meio a um cenário de reconstrução, a incerteza persiste. Muitos moradores ainda não conseguiram retirar os destroços de dentro das casas devastadas pelo tornado. José Olenik, de 71 anos, vive praticamente sozinho, derrubando o pouco que sobrou. Desolado, ele ainda depende de ajuda para retomar a rotina normal.

O idoso não esconde a tristeza, mas, quase cinco meses após o tornado, um pouco menos assustado, agradece por estar vivo.

Ele não recebeu recursos do Programa Reconstrução, porque a escritura do imóvel não está em seu nome, e, atualmente, mora com o genro. A prefeitura prometeu ajudar o morador nos próximos dias e, na semana que vem, a casa deverá ser totalmente demolida.

Imagens feitas pelo drone da CATVE mostram como está a situação atualmente. Muitas coberturas novas já foram instaladas. O cenário é diferente daquele encontrado horas e dias após o tornado de 7 de novembro de 2025. No entanto, ainda é possível perceber que, onde antes havia casas, restam apenas marcas e lembranças espalhadas entre os destroços.

Quase 150 dias após o fenômeno que rasgou ruas, arrancou telhados e desfez histórias em questão de segundos, a cidade ainda está longe de voltar ao que era antes. As estruturas e o psicológico dos moradores ainda estão abalados. Para alguns, buscar as doações enviadas de todo o Brasil tem sido um grande desafio.

Filas extensas se formam para a distribuição de cestas básicas e calçados. Rosenilde da Silva relata que a entrega está sendo feita, mas com dificuldades: ela precisa de quatro pares de calçados e recebeu apenas dois.

Por outro lado, a reportagem da CATVE registrou casos de famílias que conseguiram retirar quatro pares de calçados novos, doados pela Receita Federal e por instituições privadas.

A limitação no atendimento diário gera outra reclamação. A moradora Terezinha Rodrigues Machado chegou cedo, mas as 150 senhas já haviam sido distribuídas.

Ela também afirma que ainda não recebeu o cartão do Programa Reconstrução, do Governo do Estado, que prevê um benefício de até R$ 50 mil para recuperação de imóveis atingidos pelo tornado.

Por outro lado, há moradores que já receberam o benefício. Vagner Padilha recebeu R$ 35 mil em janeiro, mas o valor foi insuficiente para reconstruir a casa. O recurso é dividido entre mão de obra e compra de materiais. Como não conseguiu contratar um pedreiro para concluir o serviço, ele mesmo vem finalizando a obra aos poucos.

A promessa de construir casas emergenciais para atender rapidamente os desabrigados não se concretizou. Das 20 casas que deveriam ser construídas pela COHAPAR (Companhia de Habitação do Paraná), apenas uma está totalmente pronta — isso porque a moradora decidiu entrar e concluir o piso por conta própria.

Para Marilda Almeida Carvalho, falar sobre o tornado é reviver uma dor imensurável. Ela perdeu o esposo, de 57 anos, que estava sozinho em casa no momento da tragédia. A aposentada estava em Cascavel quando tudo aconteceu. Há uma semana, voltou para casa, mas com o coração partido.

A nova residência tem cerca de 35 m², bem menor do que ela estava acostumada. Em meio à dor pela perda do marido, com quem foi casada por 35 anos, e ao medo, já que dias nublados trazem lembranças da tragédia, surge também a força para seguir em frente.

O engenheiro civil da COHAPAR explica que outras casas nos terrenos dos próprios moradores não foram concluídas devido à rejeição quanto ao tamanho e ao modelo oferecido, que utiliza material semelhante ao drywall.

Como o contrato foi firmado em caráter emergencial, não houve possibilidade de alterações, já que a prioridade era dar agilidade às construções.

Segundo a COHAPAR, o contrato inicial previa 320 casas, mas muitas famílias optaram pelo Programa Reconstrução. Serão finalizadas as unidades já em andamento, além da construção de mais 30 casas em um terreno cedido pela prefeitura, que também deve receber recursos para construir outras 50 posteriormente, totalizando 100 casas nesse modelo.

Sobre as reclamações relacionadas à entrega de calçados e cestas básicas, o prefeito Sezar Augusto Bovino, que estava em Curitiba, afirmou por telefone que o município não está criando dificuldades. Segundo ele, a postura criteriosa pode estar sendo mal interpretada. O prefeito também negou falta de transparência.

Fonte: Jornal da Catve  

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