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Segunda-feira, 27 de Abril de 2026

Fora de Série: uma imersão na Semana Cultural Indígena Guarani em Diamante do Oeste

Nos dias 14, 15 e 16 de abril, aconteceu a 20ª Semana Cultural Indígena Guarani no município de Diamante do Oeste. Realizada anualmente desde 2006, a iniciativa é organizada por diretores, professores e estudantes das duas instituições de ensino indígenas da cidade: o Colégio Estadual Indígena Kuaa Mbo'e e a Escola Estadual Indígena Araju Porã. A cada ano, as unidades se alternam como sede do evento.

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Nesta edição, o evento foi sediado pelo Colégio Kuaa Mbo'e, localizado na aldeia Tekoha Anetete, mas também contou com o apoio dos estudantes da Escola Araju Porã, situada na terra indígena Tekoha Itamarã. As duas comunidades caminham juntas para preservar sua história. Foi dessa união que nasceu a Semana Cultural Indígena: um tempo de encontro, partilha e fortalecimento do modo de ser Guarani. De acordo com o professor de língua guarani, Dirceu Vera, o objetivo da semana é mostrar para as pessoas de fora que a cultura indígena permanece viva, reafirmando a identidade e a tradição nos cantos, nos passos da dança, no artesanato, na palavra dos mais velhos e no sorriso das crianças. São duas comunidades, mas um só povo e uma mesma cultura.

A programação do evento incluía apresentações culturais, danças, práticas de medicina natural, comercialização de artesanato indígena, pintura facial e uma trilha em meio à natureza. O grande diferencial deste ano foi a presença do planetário móvel do Parque da Ciência Nilton Ferreira Maia, enviado diretamente de Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba.

Na sala de pinturas faciais, a professora e coordenadora pedagógica Wanessa Carteira explicou os significados dos grafismos, uma forma de linguagem visual indígena presente tanto no corpo quanto nos artesanatos. Os grafismos são compostos por padrões geométricos que funcionam como um código. Já os símbolos representam o significado desses traços, muitas vezes inspirados na natureza, como a pele de onça, a espinha de peixe ou a cobra, e também em elementos espirituais. Assim, cada pintura carrega uma mensagem e expressa a identidade, a história e a conexão com o território.

O professor de Geografia da Escola Araju Porã, Eduardo Felipe, apresentou algumas das atividades desenvolvidas com as crianças, que abordam temas como a distribuição dos povos indígenas no Brasil, as diferenças nas datas comemorativas, os rituais de batismo de pessoas e sementes, além da valorização e do orgulho da identidade cultural.

Os cânticos e danças indígenas vão muito além do movimento corporal ou da diversão. Para o povo guarani, a dança é uma prática sagrada e comunitária, que estabelece uma conexão espiritual com as divindades e com a natureza, sendo essencial nos rituais realizados na casa de reza. Como explicou Leonir Aquino, liderança da casa de reza, responsável por conduzir cantos e danças e tocar instrumentos como o violino, esses momentos também são formas de louvar e agradecer: pelo dia, pela noite e pela chuva. Márcio Alves, que toca violão e violino nas músicas, enfatizou a importância de transmitir esse conhecimento às novas gerações, destacando que as crianças são fundamentais para que a herança cultural guarani não seja esquecida.

O artesanato indígena também é uma forma de expressão dessa tradição. Cada peça carrega horas e, muitas vezes, dias de dedicação, sendo cuidadosamente produzida com riqueza de detalhes, desde a escolha dos materiais e cores até o acabamento final. Paulino Vogado apresentou arcos e flechas feitos de bambu, que levam cerca de quatro dias para serem produzidos e, antigamente, eram utilizados para a caça, mas hoje são destinados à comercialização. Já Sheila Benites apresentou peças mais delicadas, como filtros dos sonhos, colares e pulseiras feitos com miçangas ou sementes naturais, além de brincos confeccionados com penas de galinha ou arara.

E, claro, todos os artesanatos produzidos também contam histórias. Um dos principais exemplos é a chamada “árvore da vida”, um símbolo marcante do povo guarani na região oeste do Paraná. Representada em esculturas de madeira com diversos animais em seus galhos, ela remete à memória da inundação causada pela construção da Itaipu Binacional, que provocou impactos profundos na natureza e na vida das comunidades indígenas.

Mais do que registrar um evento, visitar a Semana Cultural Indígena Guarani foi um convite a olhar para as origens da nossa história. Um lembrete de que a cultura do povo guarani, assim como a de tantos outros povos indígenas, não pertence ao passado, mas segue viva, presente e sendo construída todos os dias, nas mãos, nas vozes e na memória de quem a mantém.

Confira a coluna da Giovanna Mainard

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