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Terça-feira, 10 de Fevereiro de 2026
O assessor por trás das políticas mais controversas de Trump
O início acelerado de 2026 do governo Trump consolidou a posição de Stephen Miller como uma das figuras mais poderosas o governo.
Por anos, Stephen Miller foi uma figura influente do conservadorismo no entorno político do atual presidente americano, Donald Trump. Agora, ele é um para-raios de polêmicas.
Seu estilo implacável e combativo na condução das políticas do governo Trump impulsionou a agenda linha-dura de imigração do presidente e ampliou sua influência na projeção do poder dos Estados Unidos pelo hemisfério ocidental.
O início acelerado de 2026 do governo Trump, tanto no plano interno quanto no externo, reforçou sua posição como uma das figuras mais poderosas do governo.
Mas para a esquerda, ele é um vilão.
Na capital americana, Washington D.C., cartazes com o rosto de Miller foram colados em espaços públicos com a legenda "Fascism ain't pretty" ("Fascismo não é bonito", em tradução livre).
Integrantes do Partido Democrata (de oposição ao governo Trump) pediram sua renúncia, e até integrantes de seu próprio Partido Republicano (do qual Trump faz parte) passaram a questionar publicamente seu julgamento político e sua eficácia.
E, nas últimas semanas, Miller se viu em território pouco familiar: um operador dos bastidores exposto repentinamente aos holofotes nacionais, com palavras e ações submetidas a escrutínio.
Ele teve de recuar — ao menos temporariamente — do tipo de confronto que frequentemente apreciou travar.
'Sempre avançar com força, nunca recuar'
Pouco depois de dois agentes federais de imigração terem baleado e matado o enfermeiro Alex Pretti, de 37 anos, durante uma operação em Minneapolis no mês passado, Miller publicou várias mensagens na rede social X nas quais acusou Pretti de ser um "terrorista doméstico" e um "assassino".
A sequência de postagens foi um ataque verbal agressivo, típico de alguém que costumava discursar antes de Trump em comícios da campanha presidencial de 2016 (quando Trump venceu pela primeira vez). Miller acusou os democratas de "alimentar as chamas da insurreição". As declarações sobre Pretti eram objetivamente falsas.
Imagens de vídeo divulgadas posteriormente mostraram que Pretti, embora estivesse armado com um revólver legalmente registrado, não ameaçou agentes da Alfândega e Proteção de Fronteiras (CBP, na sigla em inglês) antes de ser atingido por spray de pimenta, derrubado e baleado dez vezes.
Dias depois, Miller emitiu uma nota à imprensa em que sustentou que a avaliação inicial do governo Trump sobre os disparos havia sido "baseada em relatos" de agentes de imigração "em campo", e que esses agentes "podem não ter seguido" o protocolo adequado.
Foi um recuo raro do assessor de postura combativa, mas ainda assim insuficiente para satisfazer seus críticos democratas, que o acusam de incentivar o Serviço de Imigração e Controle de Alfândega (ICE, na sigla em inglês) a responder de forma violenta a protestos.
"'Não foi o suficiente para Stephen Miller que esses cidadãos americanos fossem mortos pelo ICE e pela CBP, ele ainda teve de difamá-los com mentiras após suas mortes'", escreveu o congressista Don Beyer (Partido Democrata), da Virgínia, em uma publicação na rede social Bluesky.
"Miller é um fanático enlouquecido e sedento por sangue, e suas políticas colocam vidas em risco todos os dias em que ele permanece no poder."
Em maio, foi Miller quem exigiu que as autoridades de fiscalização de imigração intensificassem a detenção e a deportação de migrantes sem documentação em cidades dos EUA. Miller disse à emissora americana Fox News que o governo havia estabelecido a meta de 3.000 prisões por dia — número muito acima dos registros anteriores.
Segundo a publicação americana Washington Examiner, em uma reunião Miller "demoliu" autoridades federais de imigração por não fazerem o suficiente para deter imigrantes sem documentação em todo o território americano. Desde então, o governo intensificou a fiscalização em uma lista crescente de grandes cidades americanas, incluindo Washington D.C., Charlotte, Chicago e, mais recentemente, Minneapolis.
"Tudo o que fiz, fiz sob a direção do presidente e de Stephen [Miller]", disse recentemente a secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, ao site Axios, em parte como resposta às críticas de que ela teria sido a principal responsável pelas ações enérgicas de fiscalização da imigração do governo.
Americanos passam a rejeitar táticas de imigraçãoMiller negou ser movido por racismo ou preconceito. Ele defende a política de imigração do presidente americano como reflexo do que os eleitores escolheram que Trump realizasse.
Ainda assim, no que vem sendo interpretado como um afastamento da abordagem agressiva de Miller, Trump afirmou nesta semana que sua ofensiva precisava de um "toque mais suave", após as mortes de Alex Pretti e Renee Good, outra cidadã americana morta por agentes de imigração em Minneapolis.
A aprovação geral da política de imigração caiu para 39%, o nível mais baixo desde que Trump retornou à Casa Branca, segundo pesquisa da Reuters-Ipsos. Uma maioria clara, de 58%, afirma que as táticas de fiscalização adotadas por agentes do ICE foram "longe demais".
Essa tendência coloca Miller diretamente no centro das críticas, no momento em que os republicanos se preparam para as eleições legislativas de meio de mandato, em novembro.
"Miller é o arquiteto dessa política de deportação em massa", disse Bryan Lanza, estrategista conservador que trabalhou nas campanhas presidenciais de Trump em 2016 e 2024. "Só saberemos em novembro se a culpa é dele. Os eleitores, no fim das contas, podem ser implacáveis."
No entanto, Miller mostrou ao longo dos anos ser um sobrevivente político. Conservador combativo desde os tempos de colégio, na liberal Califórnia, ele ascendeu de assessor no Senado a auxiliar de campanha e, depois, à Casa Branca, onde atravessou as intrigas pessoais e disputas internas do primeiro governo Trump.
Em 2019, ele disse ao jornal americano Washington Post ter sentido um "choque elétrico na alma" quando Trump anunciou sua candidatura à Presidência.
Miller permaneceu ao lado do presidente em seus momentos mais difíceis, incluindo a derrota eleitoral de 2020, o ataque de apoiadores ao Capitólio dos EUA e seu isolamento político em Washington, D.C. No ano passado, acompanhou Trump em seu retorno ao poder.
"Stephen Miller é central para a psique de Trump", afirmou Lanza. "Sempre avançar com força; nunca recuar. Stephen [Miller] é alguém em quem ele sempre pode contar para sustentar essa posição, em qualquer tema."
Falando pelo presidente
O cargo oficial de Miller na Casa Branca é chefe de gabinete adjunto para políticas públicas e assessor de segurança interna.
"Stephen Miller serviu fielmente o presidente Trump por anos porque é inteligente, trabalhador e leal", disse a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, à BBC.
"Stephen articula todas as áreas do governo para garantir que cada política, externa e interna, seja implementada em ritmo recorde. Os resultados do último ano falam por si."
Em determinado momento do ano passado, Miller chegou a ser cogitado como possível assessor de segurança nacional da Casa Branca, substituindo Michael Waltz, demitido do cargo — rumores que o presidente descartou de forma sumária.
"Stephen está muito acima disso na hierarquia", disse Trump.
Em março passado, quando os EUA se preparavam para lançar ataques aéreos contra rebeldes houthis (grupo iemenita apoiado pelo Irã) no Iêmen, uma série de mensagens trocadas no aplicativo Signal, compartilhadas inadvertidamente com Jeffrey Goldberg, editor da revista The Atlantic, revelou Stephen Miller no centro do planejamento da Casa Branca, expressando o desejo do presidente de seguir adiante com o ataque.
"Pelo que ouvi, o presidente foi claro: sinal verde", escreveu Miller a um grupo de assessores graduados, entre eles JD Vance (vice-presidente dos EUA), Pete Hegseth (secretário da Defesa) e Marco Rubio (secretário de Estado).
Fonte: G1








