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Domingo, 24 de Maio de 2026

Por que a Marinha dos EUA gasta milhões com exibições de jatos?

Mesmo com acidentes e custos elevados, Pentágono vê em exibições aéreas um elo vital para relações públicas e recrutamento

A colisão de dois jatos da Marinha dos Estados Unidos em um show aéreo no estado de Idaho no último fim de semana levanta questões sobre por que o Pentágono arrisca aviões de guerra multimilionários — e suas tripulações — para fins de entretenimento.

"Esses questionamentos quase sempre fazem parte do ruído que cerca um acidente", afirmou John Venable, pesquisador sênior residente do Mitchell Institute for Aerospace Studies e ex-piloto de caça da Força Aérea dos EUA.

O acidente de domingo (17), durante o Gunfighter Skies Air Show na Mountain Home Air Force Base envolveu dois EA-18 Growlers da Marinha, uma aeronave de guerra eletrônica baseada na plataforma do caça F/A-18.

Os jatos estavam designados ao Electronic Attack Squadron 129, de Whidbey Island, Washington, e eram tripulados por integrantes do Growler Airshow Team, segundo um comunicado da Marinha.

Após a colisão dos dois jatos no ar, os quatro tripulantes ejetaram com sucesso, sendo que apenas um necessitou de atendimento hospitalar por ferimentos sem risco de morte, segundo o comunicado.

Os Growlers custam cerca de US$ 68 milhões (aproximadamente R$ 340 milhões) cada, segundo uma ficha técnica da Marinha de 2021, mas os custos de reposição seriam muito mais elevados. A produção dos jatos EA-18 foi encerrada, embora a Boeing ainda tenha F/A-18s em construção.

Os custos operacionais dos jatos da família F/A-18 giram em torno de US$ 20 mil (aproximadamente R$ 100 mil) por hora, segundo um comunicado de imprensa da Boeing de 2022.

Então, por que gastar essa quantia de dinheiro arriscando equipamentos multimilionários e a vida de tripulantes altamente qualificados simplesmente para entreter o público?

Orçamentos das equipes de voo

O Growler Airshow Team é apenas uma pequena parte do conjunto de equipes de demonstração das Forças Armadas dos EUA, que realizam manobras ousadas em shows aéreos ao longo do ano.

As mais conhecidas são as Blue Angels da Marinha e as Thunderbirds da Força Aérea, que há décadas são a atração principal de dezenas de eventos todos os anos, voando com suas pinturas características.

Os orçamentos anuais de cada equipe não são divulgados publicamente, e o Pentágono não forneceu valores após diversas solicitações da CNN.

Mas, segundo uma análise de custo-benefício de 2012 elaborada por três oficiais da Marinha que frequentavam a escola de pós-graduação do serviço na Califórnia, o orçamento dos Blue Angels era de aproximadamente US$ 98,6 milhões. Esse valor cobriu pessoal, despesas de viagem, manutenção de aeronaves e equipamentos, além de custos operacionais e de suporte.

O Congresso, em 2024, exigiu que o Pentágono realizasse um novo estudo de custo-benefício, mas, até o momento, as Forças Armadas não divulgaram nenhum dado público.

O estudo de 2012 constatou um desequilíbrio extremo na relação custo-benefício da equipe Blue Angels da Marinha

Com mais de US$ 98 milhões gastos com os Blue Angels em um ano, a Marinha obteve menos de US$ 1 milhão em benefícios de recrutamento, o que representa um retorno sobre o investimento negativo de 99%, concluíram os oficiais.

Se considerarmos a “boa vontade” – coisas como o benefício econômico dos gastos com shows aéreos para as comunidades vizinhas –, a relação custo-benefício diminui consideravelmente, mas ainda assim resultou em um retorno sobre o investimento negativo de 41%, constatou o estudo.

“Os custos superam os benefícios”, afirmou o estudo.

 As dezenas de milhões gastos pelos Blue Angels e pelos Thunderbirds representam, porém, apenas uma parte do alcance comunitário do Pentágono.

John Venable, pesquisador sênior residente do Mitchell Institute for Aerospace Studies e ex-piloto de caça da Força Aérea dos EUA, disse que os dois times combinados conseguem cobrir apenas cerca de 70 dos 325 a 350 air shows realizados na América do Norte a cada ano.

É aí que entram as unidades de demonstração, como o time Growler.

"Tanto a Força Aérea quanto a Marinha valorizam muito os locais menores que não conseguem receber um grande time de jatos, e é por isso que times como o EA-18G Growler Demonstration Team existem", afirmou Venable.

“Os serviços criaram pequenas equipes de demonstração que, quando solicitadas, podem atender essas comunidades” que, de outra forma, não teriam a oportunidade de ver voos militares, acrescentou ele.

Embora os Thunderbirds estivessem no programa do show de Mountain Home, as Forças Armadas às vezes adicionam times de demonstração menores, como os Growlers, se a agenda permitir, concluiu Venable.

Os perigos dos shows aéreos

Seja com os times de demonstração em tempo integral ou com times menores como os Growlers, os voos em air shows envolvem risco. As aeronaves voam próximas umas das outras — o chamado voo em formação — e perto do solo enquanto viajam a centenas de quilômetros por hora.

Acidentes fatais já ocorreram, incluindo o infame "Diamond Crash" de 1982 no Arizona, quando quatro pilotos dos Thunderbirds morreram durante um voo de treinamento enquanto ensaiavam para a temporada de shows seguinte.

Em 1994, um bombardeiro B-52 caiu durante um voo de treinamento para um air show no estado de Washington.

Uma investigação concluiu que o piloto tentou manobras perigosas inadequadas para um bombardeiro de oito motores.

Mais recentemente, um major da Força Aérea morreu durante uma sessão de treinamento em 2018, e em 2016, um piloto do Blue Angels morreu em um acidente antes de um show no Tennessee.

Apesar dos perigos e dos números apresentados no estudo de 2012, Venable afirmou que os militares consideram as demonstrações como algo que vale o risco.

"A maioria (das pessoas) não consegue ver ou subestima muito os benefícios para as relações públicas e o recrutamento, mas ambos são consideráveis", disse Venable.

Os shows aéreos podem atrair dezenas ou até centenas de milhares de espectadores em um fim de semana. Isso pode fornecer um "tecido conectivo" entre a comunidade e as forças armadas, além de um reconhecimento pelo trabalho que os militares realizam, explicou ele.

"O verdadeiro propósito de um show aéreo militar é dar às pessoas uma noção da precisão e do profissionalismo dos militares a pessoas que, de outra forma, não teriam a oportunidade de vê-los e, em alguns poucos especiais, despertar o desejo de servir", acrescentou Venable.

CNN