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Sexta-feira, 10 de Abril de 2026

Processos da CVM revelam indícios de manipulação de mercado desde 2017

Processos da CVM mostram recorrência de nomes e padrão de conduta em 14 casos sancionadores desde 2017

A Comissão de Valores Mobiliários (CVM), responsável por fiscalizar o mercado de capitais, identificou indícios de manipulação de mercado e uso de operações simuladas em estruturas ligadas a empresas e fundos associados ao Caso Master desde 2017. Os indícios constam em processos administrativos sancionadores abertos pelo regulador.

Ao todo, a CVM identificou 314 processos instaurados entre 2017 e 2025 relacionados ao grupo Master e a entidades conexas. Desses, 14 são processos administrativos sancionadores, etapa em que há formulação de acusação formal pelo regulador.

Os documentos analisados pelo Metrópoles revelam que as investigações não se limitam a Daniel Vorcaro, dono do Master, e apontam a recorrência de nomes e padrão de conduta que atravessa quase uma década, conectando figuras centrais do mercado financeiro a práticas consideradas graves pela CVM.

Benjamim Botelho de Almeida é um dos nomes mais recorrentes nos processos. Segundo a Polícia Federal (PF), ele atuaria como sócio oculto e operador financeiro de Vorcaro nos Estados Unidos. Botelho foi alvo de nova fase da operação Compliance Zero, deflagrada em janeiro, que investiga esquema bilionário de fraudes financeiras e gestão fraudulenta envolvendo o Master.

Os registros mostram ainda que o Grupo Reag tornou-se a presença mais frequente nos processos relacionados ao ecossistema do Master nos últimos dois anos, em um rastro de apurações que antecedeu sua liquidação extrajudicial pelo Banco Central.

Papel da CVM e o que mostram os processos

O que faz a CVM: a Comissão de Valores Mobiliários é o órgão responsável por regular e fiscalizar o mercado de capitais no Brasil, incluindo companhias abertas, fundos de investimento e intermediários financeiros.

O que são processos administrativos sancionadores: são procedimentos em que a CVM já identificou indícios mais robustos de irregularidades e formula uma acusação formal contra os investigados, podendo resultar em multas, inabilitação ou outras penalidades.

Diferença para outras apurações: nem todo processo aberto pela CVM resulta em acusação. Os sancionadores são a etapa mais avançada, dentro de um universo mais amplo de investigações e análises preliminares.

Volume de investigações no caso Master: levantamento interno da CVM analisou 314 processos relacionados ao grupo Master e entidades conexas desde 2017, dos quais 14 evoluíram para fase sancionadora.

Alertas ignorados ao longo do tempo: parte relevante dos processos teve origem em denúncias externas e comunicações de órgãos como Banco Central, Receita Federal e Ministério Público, indicando que sinais de risco circularam entre instituições por anos.

Irregularidades em fundos e debêntures

Nos processos nº 19957.009798/2019-01 e nº 19957.007976/2020-94, a CVM concentra o maior número de acusados, incluindo Botelho, Vorcaro e a Sefer Investimentos. O regulador apura irregularidades na emissão de debêntures, Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) e cotas de fundos fechados. Há indícios de que essas estruturas teriam sido utilizadas para beneficiar o grupo em prejuízo de investidores.

A Sefer, alvo da segunda fase da Operação Compliance Zero, é investigada por supostamente integrar esquemas de repasse de recursos para empresas ligadas à família de Vorcaro. Entre as beneficiárias, estaria a Milo Investimentos, que, segundo dados da Receita Federal, é controlada por Natália Vorcaro e Henrique Vorcaro, irmã e pai de Daniel Vorcaro.

Apagão de dados contábeis

Nos casos mais recentes, a CVM foca a governança da Reag Capital Holding. No Processo nº 19957.011231/2025-34, o documento aponta que administradores da companhia deixaram de elaborar demonstrações financeiras de 2024 e balanços trimestrais de 2025, o que na prática impediu o mercado de aferir a real saúde financeira da holding.

Ainda em relação à Reag, o Processo nº 19957.006684/2025-49 cita o uso de informação privilegiada e negociação em período vedado durante a movimentação de ações da GetNinjas (posteriormente Reag Investimentos) em fevereiro de 2025. Complementarmente, o Processo nº 19957.018146/2024-16 apura se o fundo Reag Alpha omitiu seus reais objetivos ao adquirir participação relevante na companhia em 2023, ferindo normas de transparência.

Manipulação e operações simuladas

No Processo nº 19957.006441/2021-87, a CVM analisa operações realizadas entre setembro de 2018 e outubro de 2019, período em que o Banco Máxima (atual Master) e Angelo Antonio Ribeiro teriam, segundo o processo, atuado para influenciar artificialmente o preço das cotas do fundo imobiliário CARE11.

O CARE11 é um fundo imobiliário focado no segmento de “death care”, com investimentos em ativos ligados a cemitérios, jazigos e serviços funerários.

Já o Processo nº 19957.005363/2021-01, incluído pela CVM no conjunto de apurações sobre entidades conexas ao caso Master, detalha o uso da Milo Investimentos em uma operação de “money pass” (transferência irregular de recursos disfarçada de negócio legítimo) para ocultar o destino final do capital.

Mudanças na atuação da CVM

Os processos analisados fazem parte do diagnóstico que embasou uma revisão interna conduzida pela Comissão de Valores Mobiliários após o colapso do grupo Master. A CVM prepara mudanças em áreas de fiscalização da autarquia.

Em março de 2026, um grupo de trabalho criado pelo regulador concluiu que sinais de risco ligados às estruturas investigadas foram percebidos de forma “transversal” por diferentes áreas e instituições ao longo dos anos, mas sem consolidação adequada das informações.

Outro lado

O Metrópoles entrou em contato com as defesas de Daniel Vorcaro, Milo investimentos e Safer Investimentos, mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem.

As defesas de Benjamim Botelho de Almeida e Angelo Antonio Ribeiro da Silva não foram localizadas. O espaço segue aberto.

Metrópoles