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Quinta-feira, 11 de Junho de 2026

Ramadã no Rio de Janeiro e adaptação a Xerém: conheça a promessa sul-africana do Fluminense

Apelidado em seu país de "Joga Bonito", jovem de 18 anos é tratado como uma joia e conta os desafios da adaptação ao Brasil

A divisão de base de um time de futebol é sempre uma mistura de culturas, realidades e personalidades diferentes. Nessa reunião de diferenças se cria um grupo e se formam os talentos brasileiros. Mas, quando se ouve a "resenha" do time sub-20 do Fluminense, um sotaque diferente se destaca.

É o jeito de falar de alguém que ainda está aprendendo o português, mas que, mesmo assim, consegue se comunicar com os companheiros através do futebol. Trata-se de Kgomotsu Madiba, promessa sul-africana que passou em um teste na base tricolor e faz parte do novo foco de captação do clube no continente africano.

O jovem de 18 anos deixou seu país natal e a família para trás em busca do sonho de se tornar jogador de futebol profissional. As portas abertas em Xerém são a chance que o jovem atacante, com proximidade ao futebol brasileiro, precisava.

A relação de Madiba com o Brasil vai além da admiração por grandes craques brasileiros. Ela se mistura com o estilo que tenta colocar em campo. Jogando pelas pontas do ataque, ele é aquele tipo de jogador que gosta do drible, não tem medo de partir para cima e infernizar a defesa adversária.

Esse jeito de jogar lhe rendeu um apelido nos campos em que atuava na África do Sul: "Joga Bonito". Em português mesmo. Segundo o próprio, jogadores que têm estilo considerado brasileiro são chamados assim em seu país. E as inspirações dele não poderiam ser melhores se o objetivo é, de fato, jogar bonito.

— Vini Jr. e Neymar. Pelo estilo. O jeito que eles driblam, eu sinto que é parecido com o meu. Quando eu driblo e quando vejo eles fazendo, sinto que posso dizer que eles são meus ídolos, meus professores. Antes dos jogos eu assisto a eles e tento implementar as coisas que eles fazem no meu jogo também. É o jeito único no estilo de jogo deles. Acredito que somos iguais.

Kgomotsu é tratado como uma joia entre os sul-africanos. Passou por seleções de base e foi campeão da Copa Africana de Nações sub-20 quando tinha 17 anos, sendo titular na semifinal contra a Nigéria.

No Brasil, ainda vive período de adaptação tanto ao clima quanto à velocidade do futebol brasileiro. Ambos foram classificados como as principais dificuldades que teve nesses primeiros momentos no país. A culinária brasileira também é outro fator de adaptação, aprovada pelo jovem jogador, mas com exceções.

— Pizza, eu não gosto da pizza brasileira (risos).

Os desafios

Ter um atleta estrangeiro em um time profissional já é um desafio que exige adaptação de todos no clube. Na base, tudo isso é potencializado pelo fator formação. Além do jogador, é necessário desenvolver a pessoa.

Ter um jogador de outro continente, com uma cultura completamente diferente, demandou ao clube adaptações inéditas, que foram tratadas pela direção das categorias de base do Fluminense. Um dos exemplos vem do âmbito religioso.

— Foi a primeira vez que tivemos um atleta muçulmano. Teve o Ramadã, que durante um período exigiu adaptar parte dos treinamentos e também o setor de nutrição teve o desafio de prepará-lo. Logicamente, com a questão de alimentação que exige no Ramadã, que respeitamos bastante, tivemos o cuidado de propor algumas atividades para ele e retirar de outras por conta do calor intenso da nossa cidade. Tivemos uma preocupação com o bem-estar e também com a parte religiosa dele — contou Antônio Garcia, diretor executivo das divisões de base do Fluminense.

Madiba ainda vai conquistando aos poucos o espaço no time principal do sub-20. Vem sendo utilizado como reserva para entrar nas partidas e ajudar o time nestes primeiros meses, enquanto se adapta e integra com os companheiros.

O desafio de aprender o português é um dos fatores principais que ele vem superando com bom humor e também experiência de vida. A África do Sul tem 11 idiomas oficiais e o atacante fala fluentemente sete deles, o que facilita o aprendizado.

— O Madiba é um jovem que fala sete idiomas. Tem um nível cultural e uma cultura de trabalho altíssimos. É um jovem que ama aprender. Ele faz um esforço gigantesco aqui todo dia para se comunicar em português. Isso facilitou a adaptação. Os jogadores abraçaram a ideia de ter um estrangeiro com uma língua muito diferente. Estão tentando dar esse conforto para que ele consiga entender a maneira que a gente comunica o futebol em português e tenha uma adaptação facilitada. Está sendo bem legal porque ele foi abraçado por todo mundo e ele tem uma capacidade muito grande de aprendizado — elogiou o técnico do sub-20, Felipe Canavan.

O olhar na África

A chegada de Madiba a Xerém faz parte da expansão do projeto de captação do Fluminense. O clube é um dos principais do Brasil na observação e desenvolvimento de jovens jogadores brasileiros, que fazem a fama dos "Moleques de Xerém".

Há também um processo mais longevo de análise nos países vizinhos da América do Sul. Hoje, por exemplo, há o colombiano Palacios também no time sub-20, que é peça frequente no time titular. O trabalho no continente africano é mais recente e tem três modelos de observação.

— A gente trabalha com os dois modelos e até com um terceiro, que é indicação, porque tem muitos agentes trabalhando nesse mercado. É relativamente novo para nós e para os clubes brasileiros. Você vê atletas africanos em clubes como Palmeiras, São Paulo e Internacional. O Fluminense também faz parte desse ciclo e é captador nesse mercado. O mundo hoje é muito globalizado e online você consegue ver jogos do mundo inteiro. Tem esse processo não só de poder ir lá, como fomos em Gana e Angola no ano passado. A gente consegue fazer esses três processos: ter as indicações, olhar online e também in loco.

Madiba é só o primeiro exemplo de um trabalho que promete seguir. Para ele, Xerém é a chance de uma vida, de buscar os objetivos, de se tornar jogador e alcançar os ídolos que antes pareciam distantes. Para ele, os sonhos não são pequenos.

Portal G1