Internacionais | Soldados executados
Sábado, 28 de Fevereiro de 2026
Soldados russos relatam à BBC condições extremas no front da Ucrânia
Quatro homens expõem o horror e a brutalidade das condições na guerra da Ucrânia; dois afirmam ter visto soldados serem baleados por se recusarem a cumprir ordens.
Aviso: esta reportagem contém detalhes de extrema violência e referências a suicídio
Quatro soldados russos expuseram o horror e a brutalidade das condições do lado russo da linha de frente na guerra na Ucrânia. Dois deles disseram à BBC ter visto soldados serem executados no local por se recusarem a cumprir ordens.
Um dos homens afirmou à equipe do documentário da BBC que presenciou a execução de um soldado por ordem de seu comandante, que foi declarado "Herói da Rússia" em 2024.
"Eu vi isso – a apenas dois metros, três metros... clique, estalo, tiro", disse.
Outro soldado, de uma unidade diferente, disse ter visto pessoalmente seu comandante atirar contra quatro homens.
"Eu os conhecia", disse ele sobre os militares executados. "Eu me lembro de um deles gritando 'Não atire, eu faço qualquer coisa!'."
Um dos entrevistados relatou ainda ter visto 20 corpos de soldados mortos em uma vala após terem sido "zerados" pelos companheiros. O termo "zerar" é uma gíria militar russa para executar soldados da própria tropa.
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No documentário The Zero Line: Inside Russia's War (A Linha Zero: Por Dentro da Guerra da Russa, em tradução livre), esses homens relatam detalhadamente como foram torturados por se recusarem a participar de ataques que descrevem como missões suicidas. Tropas russas chamam esses ataques de "meat storms" (tempestades de carne, em tradução livre), expressão usada para classificar ondas sucessivas de homens enviados para a linha da frente de forma incessante, na tentativa de desgastar as forças ucranianas.
Essa é a primeira vez, segundo análise da BBC, que soldados russos da linha de frente relatam em frente às câmeras ter presenciado comandantes ordenando a execução de seus próprios homens.
Um dos entrevistados, cuja função era identificar e contabilizar soldados mortos, apresentou listas detalhadas que indicam ser o único sobrevivente de um grupo de 79 homens com os quais foi mobilizado.
Ele disse que, por se recusar a ir para a linha de frente, foi torturado e urinaram em cima dele. Segundo seu relato, outros integrantes da unidade que também se recusaram e foram submetidos a choques elétricos, tiveram de passar fome antes de serem enviados desarmados às chamadas "meat storms".
Os quatro homens, que estão foragidos, relataram os horrores que testemunharam de um local não divulgado fora da Rússia.
Quase toda a oposição pública à invasão da Ucrânia pelo presidente russo, Vladimir Putin, foi sufocada na Rússia. Moscou não divulga os números oficiais de baixas, mas o Ministério da Defesa do Reino Unido afirma que mais de 1,2 milhão de militares russos foram mortos ou feridos desde o início da invasão em larga escala, em 24 de fevereiro de 2022.
O governo russo declarou que suas Forças Armadas "operam com a máxima contenção possível nas condições de um conflito de alta intensidade, tratando seu pessoal com o máximo cuidado".
"As informações sobre supostas violações e crimes são devidamente investigadas", acrescentou o governo russo. "Não somos capazes de verificar de forma independente a precisão ou a autenticidade das informações fornecidas."
Os relatos detalhados em primeira mão dos quatro homens também corroboram informações sobre a violação da lei e da ordem na linha de frente russa.
Ilya, o soldado responsável por identificar e contabilizar os mortos, é um dos homens que afirmam ter visto companheiros serem mortos pelos comandantes.
Antes da guerra, o homem de 35 anos dava aulas para crianças com necessidades especiais e autismo em Kungur, nos Montes Urais. Em maio de 2024, segundo ele, policiais foram à casa de seus pais e informaram que ele havia sido convocado.
Ilya afirma ter sido mobilizado ao lado de outros 78 homens em um centro de recrutamento na cidade de Perm.
"Quase todos estavam bêbados", diz. "Avante para a batalha! Vamos pegar o Zelensky e hastear nossa bandeira!", se recorda de ouvi-los gritar.
"Eu os observava e pensava: 'Como é que eu vim parar aqui?' Eu estava com muito medo."
Ao chegar à Ucrânia, Ilya conta que a maioria dos homens foi enviada diretamente para a linha da frente. Ele diz que não queria atirar nem matar ninguém e acabou num posto de comando.
As condições eram brutais. Segundo ele, presenciou quatro pessoas serem baleadas à queima-roupa por um comandante — uma em Panteleimonivka e três em Novoazovsk, ambas em Donetsk, território ocupado pelas forças russas, no leste da Ucrânia — porque haviam fugido da linha de frente e se recusado a retornar.
"A coisa mais triste é que eu os conhecia. Eu me lembro de um deles gritando 'Não atire, eu faço qualquer coisa!', mas ele [o comandante] os zerou assim mesmo", afirmou Ilya.
Segundo os entrevistados, o "zeramento" costuma ser aplicado como punição por desobediência a ordens e funciona como forma de intimidação para outros que cogitam fazer o mesmo.
"Seu destino dependia do comandante. O comandante estava no rádio: 'Zere este, zere aquele'", disse Ilya.
As execuções de soldados que se recusavam a cumprir ordens não se limitavam à unidade de Ilya.
"É claro que eles matam os próprios homens, isso é algo normal", diz Dima, de 34 anos.
Antes da guerra, ele vivia com a mulher e a filha e trabalhava em Moscou como técnico de conserto de lava-louças.
Em outubro de 2022, ele relata estar caminhando entre um trabalho e outro quando foi abordado por um grupo de policiais.
Fonte: G1








